As florestas marinhas, dominadas por algas castanhas formadoras de habitat, como kelps e fucóides, estão entre os habitats vegetados mais produtivos do planeta, cobrindo ~25% da zona costeira a nível mundial. Estes habitats estruturalmente complexos fornecem uma vasta gama de serviços de ecossistema inestimáveis, incluindo suporte à biodiversidade costeira, sequestro de carbono e criação de refúgios climáticos. Por conseguinte, a sua conservação e restauro são cada vez mais reconhecidos como Soluções Baseadas na Natureza (SBN) custo-eficazes para enfrentar a perda de biodiversidade e as alterações climáticas. No entanto, paradoxalmente, os próprios habitats com este potencial de mitigação estão sob grave ameaça. As populações globais de florestas marinhas diminuíram cerca de 60% nos últimos 50 anos, com perdas anuais estimadas em ~2%, impulsionadas pelo aumento da temperatura oceânica, intensificação das pressões antropogénicas e pelas consequências ecológicas destes fatores.
A costa portuguesa constitui uma zona de transição biogeográfica, suportando diversas florestas marinhas, tanto intertidais como subtidais. A região norte temperada serve de refúgio climático para espécies com afinidade a águas frias, mantidas pelos eventos de afloramento costeiro no verão, enquanto as condições progressivamente mais quentes a sul favorecem espécies de águas quentes e termicamente resilientes. Investigação recente demonstrou que estas comunidades estão a mudar rapidamente, com espécies de kelp estruturalmente complexas a serem substituídas por espécies termicamente tolerantes ou estruturalmente mais simples (i.e., turf). Este processo – tropicalização – tem consequências ecológicas profundas: desestabilização da habitat, facilitação da proliferação de espécies não nativas, alteração das interações bióticas, incluindo aumento da herbivoria, e homogeneização funcional progressiva das comunidades de macroalgas. Embora a dimensão estrutural destas mudanças esteja cada vez mais documentada, as suas consequências funcionais e as repercussões para os serviços do ecossistema permanecem criticamente por explorar.
O FUNSEA pretende preencher esta lacuna fundamental de conhecimento. O seu objetivo principal é compreender os impactos funcionais da perda de macroalgas e das mudanças nas comunidades num oceano em aquecimento, fornecendo métodos inovadores baseados em atributos funcionais e de suporte à decisão para avaliar esses impactos e orientar as melhores práticas de conservação dos ecossistemas costeiros e de mitigação das alterações climáticas. O projeto está estruturado em seis pacotes de trabalho interligados, avançando desde medição de atributos, quantificação da diversidade funcional até à modelação de cenários e ao co-desenvolvimento de ferramentas de gestão.
Central à abordagem do FUNSEA está a utilização da diversidade funcional, que tem emergido como indicador integrativo do funcionamento dos ecossistemas. Ao caracterizar os atributos funcionais das principais espécies de macroalgas ao longo de gradientes de profundidade, térmicos e latitudinais na costa portuguesa, o projeto identificará quais as espécies e combinações de atributos que mais contribuem para o funcionamento do ecossistema e quais são mais vulneráveis ou resilientes ao stress térmico. Isto permitirá ao FUNSEA determinar os limiares funcionais ao aquecimento através de protocolos experimentais inovadores, avaliar se as comunidades termicamente resistentes mantêm capacidade funcional equivalente às que substituem, e identificar espécies funcionalmente únicas cuja perda pode comprometer desproporcionalmente o funcionamento do ecossistema.
O FUNSEA aborda também hipóteses sobre a estratégia das comunidades sob aquecimento, nomeadamente uma transição de estratégias conservadoras para aquisitivas de norte para sul, e as implicações para o potencial de sequestro de carbono, a complexidade do habitat para as pescas, suporte à biodiversidade, entre outros.
O projeto prevê vários resultados concretos: 1) dados empíricos abrangentes que relacionam atributos das macroalgas com processos ecológicos e serviços; 2) indicadores funcionais de vulnerabilidade e resiliência aplicáveis ao longo de gradientes térmicos, apoiando as diretivas europeias; 3) ferramenta de apoio à decisão que integra dados de diversidade funcional com cenários de alterações climáticas para orientar a conservação das florestas marinhas como SBN.
O projeto FUNSEA é conduzido por uma equipa multidisciplinar sediada no CIIMAR e no MARE-IPL, com um sólido historial na monitorização das florestas marinhas, no estudo da sua diversidade, ecologia funcional e impactos das alterações climáticas. Alinhado com os ODS 13 e 14, e comprometido com o envolvimento dos atores-chave e a literacia oceânica, o FUNSEA irá gerar conhecimento e ferramentas para garantir que as florestas marinhas cumpram o seu potencial como capital natural resiliente e climaticamente inteligente para as gerações presentes e futuras.